Sapato, scarpa, chaussure, zapato, schuh…!

Put on your red shoes and dance the blues” David Bowie

Flair julho 2008/n.7

Flair julho 2008/n.7

Sapatos, sapatos, sapatos. Desde criança uma mulher gosta de sapatos. Terá nascido assim ou terá aprendido a amá-los?

Eu me lembro que na idade de 4 ou 5 anos desejei que minha mãe comprasse um sapatinho de verniz vermelho “mary-jane” que eu havia visto em uma loja de sapatos. Fiquei muito triste porque ela os comprou pretos. Disse que vermelho era uma cor vulgar. Somente muito mais tarde, com várias sessões de divã, consegui me livrar deste “trauma”…

sapato estilo mary-jane

Sapato estilo Mary-Jane

São poucas as mulheres que conheço que não adoram possuir sapatos…muitos deles. Mulheres de todas as faixas etárias e classes sociais.

As muito abastadas amam possuí-los de todos os formatos, cores, alturas, modelos. Para cada par que compram sempre existe uma jusficativa irrefutável. Pares e pares ficam estocados nas prateleiras dos armários quando alí cabem. Ou então quando muda de estação são guardados em suas caixas e vão para algum outro pouso para dar lugar aos novos que chegam. É um vai e vem que nunca tem fim. O descarte é impensável. Cada par traz sentimentos infinitos; amorosos ou raivosos mas que jamais serão esquecidos.

O mote é colecioná-los porque parece existir uma Imelda Marcos dentro de toda mulher.

Além disso existe todo um ritual para limpá-los. Muitas, as mais exigentes e economicamente dotadas, após um dia de uso, os levam ao sapateiro para uma limpeza especializada. Outras os higienizam em casa com desodorantes, álcool, flanelas especiais e uma mãozinha de creme importado ou graxa. Tem aquelas que os deixam respirar em compartimentos com aparelhos especiais que retiram os ácaros do ar evitando desta forma o bolor. Quase todas, colocam seus sapatos em saquinhos de TNT que “respiram” e tem alguma forma de visor para poderem visualizá-los. Quem não, escreve o modelo nas caixas de papelão. Atualmente existem no mercado caixas totalmente transparentes, empilháveis e ventiladas. Enfim modelos para todos os gostos. Isto tudo para falar de usos e costumes mais atuais.

Agora quanto à moda, sem voltar demais na história pois existem muitos livros especializados nesta área, vou fazer um enorme “salto” apenas citando aqui grandes mestres do design como André Perugia, Roger Vivier, Manolo Blahnik, David Evins, Patrick Cox, David Little, Salvatore Ferragamo, Jimmy Choo, Vivienne Westwood, Christian Louboutin entre outros que fizeram e alguns ainda fazem grandes contribuições sejam técnicas como criativas na área, nos séculos XIX, XX e XXI.

Mas quem são os designers de calçados que estão por trás das ”grifes” nacionais que se apresentam ao consumidor de hoje? Será que o que vemos nas revistas e lojas locais são realmente criações originais? Tenho muitas dúvidas pois já encontrei muitos produtos, em lojas muito conhecidas, que eram a cópia exata de modelos Gucci, Fendi, Ferragamo entre outras.

Obviamente existem estilistas nacionais renomados que desenvolvem trabalhos interessantes mas na história do sapato em termos de estilismo quase tudo já foi inventado, portanto o que vemos nestas coleções é sempre uma reedição, uma busca no retrô, no “déjà vu”. Acho que o que está faltando é muita pesquisa em termos de novas tecnologias e novos materiais. Estes sim trarão estéticas inéditas. O resto é o resto. Um eterno cansaço. Pastiche sonolento. Nos últimos desfiles das Fashion Weeks vi alguns sapatos mal desenhados deformando o passo e o posicionamento dos pés da modelo. Faltou técnica, modelagem, pesquisa.

sapato conceito do futuro/ yves behar, johan liden, geoffrey petrizzi

Sapato conceito do futuro/ Yves Behar, Johan Liden, Geoffrey Petrizzi

Por volta de 1957 Raymond Massaro criou para a casa Chanel o famoso sapato com biqueira preta (hoje oferece sete alturas de salto). Foi um furor.

Casa Chanel/Raymond Massaro/ 1957

Casa Chanel/Raymond Massaro/ 1957

Casa Chanel/Karl Lagerfeld/anos 90

Casa Chanel/Karl Lagerfeld/anos 90

Na década de noventa era muito chique usar sapatos simples, com linhas puras, e os sapatos deveriam combinar com a bolsa formando um conjuntinho harmonioso e total. Este padrão durou longos e tortuosos anos. O tempo dos “combos”. Tudo muito certinho. Saltos c onfortáveis para o mercado de trabalho com biqueiras mais largas. Nesta época os sapatos eram chamados “clássicos”. Quase sempre com a gáspea lisa com um pequeno detalhe, uma fivelinha, um repuxado no canto, um lacinho delicado, uma florzinha. O sapato estava domado, domesticado.

As cores eram bem sóbrias. Preto, azul marinho, marrom, cinza e algumas tonalidades próximas.

Em 1995 Vivienne Westwood e Christian Louboutin puseram o vermelho em linha, este último não somente os fez vermelhos mas pinta suas solas de vermelho vivo até hoje! Sua marca registrada.

Sola sapato Christian Louboutin

Sola sapato Christian Louboutin

E por falar em Louboutin, eis que  ele está abrindo sua loja no Brasil em São Paulo. Considerado o designer francês de sapatos favorito de reis, rainhas e da “hight society”, insuperável pela sua exclusividade, elegancia e pelo design que ele chama “sapatos de Cinderela”, deixou-se fotografar em frente de sua loja descalço. Tirem vocês as suas conclusões.

Bicos finos, saltos altos, cores vivas, o vermelho, o brilho, sempre foram atrativos eróticos.

Hoje vemos sendo relançadas todas as tendências; sapatos abotinados, plataformas, cujo auge foi nos anos 60, ousadias insanas, saltos estratosféricos, mix de materiais erzats, fivelas dominatrix, correiras, correntes, cordões, releituras ”back to the future”, mesmo porque Chanel nos anos 90 já se apropriara do look fetiche no seu clássico sapato de 2 tons.

Casa Chanel 1990/Sapato Fetiche

Casa Chanel 1990/Sapato Fetiche

estilos atuais

Estilo atual

Estilos atuais

Estilo atual

estilo atual

Estilo atual

O centro das atenções e da atração volta-se hoje novamente aos pés.
Agora sapatos se oferecem para todos os momentos, gostos e justificativas. Não existem regras de uso e sim o desarranjo, o desconstruir. Sem combinações.

Os sapatos sempre foram objeto de veneração desde a antiguidade mas o fetichismo só surgiu com este nome no sec. XIX como uma reação à repressão e ao puritanismo vitoriano. Dr. Freud escreve um artigo tardio sobre fetichismo em 1927.

Alguns sinais imagéticos do fetichismo são os sapatos pretos de verniz, os saltos muito altos e finos que conotam submissão da mulher pela impossibilidade de seu movimento. Sapatos providos de cadeados, correntes, tachas ponteagudas (cravos), tiras de couro. Todos estes elementos servem para causar satisfação pulsional tendo o sapato como objeto erótico para prática sexual. Os sapatos fetiche transformam quem os usa em objeto.

Sapato Christian Louboutin

Sapato Christian Louboutin

A análise psicanalítica segundo Dr. Freud faz o “fetiche aparecer como o substituto do falo da mulher (mãe) em que a criança acreditara e ao qual não quer renunciar. A criança se recusa a tomar conhecimento do fato de sua percepção de que a mulher não tem pênis para com isso fugir à ameaça de uma eventual castração.”

No indivíduo fetichista existe uma renegação da realidade externa, uma renegação da castração. Assim como a mulher não tem pênis na realidade, ele encarna o objeto que supostamente falta substituindo-o por um outro objeto da realidade, isto é, o objeto fetiche. A eleição de tal objeto lhe permite não renunciar ao falo na mulher.

Quando perguntado sobre o assunto o Dr. Paul Kardous, analista Lacananiano, me disse que  “o fetiche é uma perversão e não uma psicose. Porém o fetiche na neurose,  pode ser um meio para esquentar, propiciar, apimentar, a relação. Nestes poucos casos, que são os mais frequêntes, é usado como um meio para se atingir um fim, que é a satisfação da pulsão, dito de outra forma: gozar!!! Assim sendo, o fetiche é de uma estrutura perversa quando utilizado apenas e tão sómente com objetivo final da relação e, neurótico (normal) quando usado enquanto meio para se atingir um alvo para além deste objeto.”

sapato-fetiche026

Sapato de Nicholas Kirkwood para Rodarte

Estruturalmente, o fetiche é um artifício para se negar (na neurose) e ou desmentir (na perversão) a castração feminina. Portanto, enquanto perversão, só cabe aos homens.”

E para a mulher? Qual é a origem do fetiche feminino, para sua compulsão consumista especificamente voltada os calçados? O objeto fetiche é exclusivamente masculino. Para a mulher existe a condição da objetificação. Resta saber se ela está consciente dela.

Um sapato não chega a ser um objeto que é abstraido de sua função. Serve para proteção dos pés, se pensarmos em sua função básica. Mas pode vir a sê-lo se for usado por uma única vez e/ou transformar-se em objeto de uma coleção. Na coleção o objeto uma vez funcional torna-se objeto de posse, passivo. Assim a coleção é como um jogo passional que na psicanálise é interpretada como regressão ao estado anal que se traduz por condutas de acumulacão, ordem e retenção agressiva.

O extremo amor e prazer de quem os coleciona vem do fato de que o objeto colecionado lhe parece único e exclusivo. Há o fascínio da singularidade absoluta e da série indefinida. Um jogo até que a vida dure. O objeto colecionado é achado, ordenado, classificado, finalmente exibido, sendo um espelho perfeito do colecionador, aplacando na sua alma todas as tensões e neuroses do dia a dia. O homem para ele regressa, à ele se recolhe encontrando sua paz temporária e ilusória.

Coleção

Coleção

Colecionar sapatos pode ser um caso extremo mas existem ainda outros comportamentos de equilíbrio neurótico. Observação realizada por mim, em loja de artigos femininos para consumidoras de alto poder aquisitivo, durante um certo período de tempo para estudo, mostrou o retorno de determinadas clientes, diariamente, para busca e compra de qualquer produto feminino. Ao serem perguntadas se estavam necessitadas desses produtos, responderam que não, mas que estavam sempre em busca de novidades.

Neste padrão de conduta muitas vezes levavam produtos emprestados tal a carência indefinidamente renovada e sistematicamente frustrada.

Não há dúvida de que o mundo dos objetos é extremamente sedutor, isto pensando da forma como viemos fazendo até agora; sempre conectados num aumento da disponibilidade de bens e recursos naturais consumíveis para nosso máximo bem estar.

Para estas consumidoras só existe o piloto automático. Comprar, comprar, comprar é sua aparente satisfação pessoal ou sua profunda insatisfação interior inconsciente.

Entretanto deveremos pensar numa nova estratégia. Na reeducacão de nossos hábitos, desligando nosso piloto automático, através do pensar na suficiência, num drástico repensamento no nosso conceito de bem estar.

Em face de momentos de crise econômica mundial será que começam a existir limites na consciência dos consumidores? A condição planetária e as questões de sustentabilidade estarão sendo condicionadoras para novas formas de consumo e da idéia de bem estar? Haverá maior conscientização sobre as civilizações carentes no globo? Haverá maior conscientização sobre os danos materiais, conflitos étnicos, fome, instabilidade política, saúde e felicidade humanas?

Quantos 50, 100, 200, 500 sapatos precisaremos comprar antes de podermos sustentar novas éticas para um futuro melhor?

sapato-terra

Foto: Michael Roberts

Notas Bibliográficas:

Dana Thomas, Deluxe How Luxury Lost its Luster, 2007

Jean Baudrillard, O Sistema dos Objetos, 1968

Pierre Kaufmann, Dicionário Enciclopédico de Psicanálise – O Legado de Freud e Lacan, 1996

Colin MacDowell, Manolo Blahnik,  2000

Stefania Ricci (a cura di), Museo Salvatore Ferrgamo, Idee, Modelli, Invenzioni, 2004

Créditos Fotográficos

Linda O’Keeffe, Sapatos

Revista Tank, Volume 3, Issue 10, 2004

Harper’s Bazar, February, 2009

Colin MacDowell, Manolo Blahnik,  2000

Desenho

Suzana Sacchi Padovano

Agradecimento

Dr. Paul Kardous