Os Magníficos Frascos e seus Indescritíveis Perfumes

Frascos de Perfume e suas Fragrâncias

“Smell, like colour, is a biological phenomenon. It is not an intrinsic property of a molecule – it is what our cells feel when they touch it.

In other words, it is a problem of molecular recognition.”

Luca Turin – Secret of Scent.

Quem não aprecia um delicioso perfume? Um inebriante odor, seja ele proveniente da natureza como no caso de uma flor, e há tantas delas, tal qual jasmim, rosa, cravo, lírio do vale, magnólia, narciso, gardênia; ou então como de frutas tal qual morango, pêssego, maçã, abacaxi, melancia e coco; ou modernos como, ar fresco, chuva de verão, gelo seco, ou outros odores pungentes como os do tabaco, couro, patchouli e pimenta?

Jungle Eau de Parfum Kenzo 1996

Jockey Club Sec. 19 Inglaterra

A indústria dos perfumes veio suprir a necessidade de termos mais perto de nós e por mais tempo um aroma que gostamos. Não quero aqui citar a história, mas falo de carências mais recentes, onde o ser humano induzido pelo marketing moderno procura embelezar-se e nutrir-se com bálsamos e especiarias, pelo mais puro prazer, por necessidades auto afetivas ou por mero exibicionismo.

Acredito também que pelas exigências da indústria, nunca ficaremos sem qualquer fragrância, desde as mais antigas ou mais recentes, a não ser que esta seja uma escolha pessoal.

 

Ecusson Eau de Parfum Jean D'Albret 1947

Bellodgia Eau de Parfum Caron 1927

Atualmente temos uma vasta gama de perfumes estrangeiros e alguns nacionais. Mais de 500 novos perfumes são lançados no mercado cada ano. Nossa escolha acaba ficando cada dia mais difícil pois quase todas as fragrâncias atuais se assemelham muito com pequeníssimas variantes. Os grandes lançamentos são, genericamente falando, 90% cítricos para o mercado masculino e tendem a ser 90% com odor pêssego misturado com iris para o feminino.

Como deve-se fazer para escolher um novo perfume? Não tendo de antemão uma marca na cabeça, com a fragrância já conhecida e usada, é um processo bastante confuso. Normalmente uma loja especializada já se encontra previamente perfumada. Os odores estão todos misturados no ar pelos compradores anteriores, pelos “testers” que foram abertos ou pelos clientes que chegam in-devidamente perfumados.

 

Royal Dove Eau de Parfum Delagar 1960/80

Sair à procura de uma nova idéia ou um novo conceito de perfume exige um pouco de espírito de aventura. Sorte de encontrar a opinião abalizada de um vendedor conhecedor de seu “métier”, ou azar se encontrar um vendedor novato e feliz que poderá lhe oferecer uma dezena de perfumes e deixar você totalmente indecisa(o) porque, (a) são muito parecidos entre si (b) são muito doces (c) são muito cítricos (d) não apresentam um diferencial olfativo perante aqueles que você já possue (?). Se se faz cara de não saber o que se quer, o vendedor vai tentar lhe vender os últimos lançamentos, provavelmente de alguma atriz ou starlet americana tipo Sarah Jessica Parker, Paris Hilton ou Jennifer Lopez…nesse caso é preciso ter muito cuidado!

Annick Goutal Eau de Parfum Gardenia Passion 1989

A dúvida se instala; comprar por comprar sem amar ou por gostar mais ou menos de todos…Mas aí, a tentação arma uma cilada. Pensamos que não há mal nenhum em se levar algo novo para casa. Recentemente soubemos em uma pretigiosa revista que houve o lançamento de perfumes de quatro famosos Ateliers de Moda Internacionais. Eles estavam entre os dez que o vendedor havia lhe mostrado, mas nenhum deles cheirava especial. Entretanto seria terrivelmente bem estar “up to date” usando um deles nas festas com amigos. Afinal cheiros também elevam status. Odores revelam bom gosto, atitude perante a vida, posição na escala social! Ou não?

L'Air du Temps Eau de Parfum Nina Ricci 1948

Associar sua persona a uma marca de luxo é um verdadeiro sonho tornado realidade e perfume é um dos luxos mais acessíveis. Desfilar cheirando J’Adore (Dior/1999), Apple (Marc Jacobs/2010), Eau Sauvage (Dior/1966) ou Égoiste (Chanel/1990), poderá ser altamente edificante para seu ego, talvez um pouco menos para o seu bolso.

Omnia Green Jade Eau de Parfum Bulgari 2008

J'adore Dior / Eau de Parfum

J'adore Eau de Parfum Dior 1999

Assim, numa escolha quase como entre a vida e a morte, há de se decidir por um deles.

Qual será o fator decisional? Bem, se todos os odores parecem iguais, ou muito semelhantes, pode-se conectar com o segundo maior fator de escolha de um perfume, se não for um dos primeiros para muitas mulheres e homens – o seu frasco!

No começo do século, antes da Primeira Guerra Mundial, as grandes Casas de Moda como Chanel, Lanvin e Patou, lançaram seus “Parfum” em frascos feitos por Lalique e Baccarat que eram especizalizados em cristaleria. Seus frascos eram verdadeiras obras de arte.

Opening Night Parfum Lucien Lelong 1935

Mais tarde com a democratização do perfume, surgiram as “Eau de Toilette” e “Eau de Parfum” e os frascos então também se simplificaram e foram industrializados, sendo até hoje feitos em vidro com tampas em plástico e outros materiais mais baratos para atender a demanda do “middle market”.

Ainda assim, as marcas de luxo investem uma grande quantidade de dinheiro no ramo da perfumaria e consequentemente nos seus envólucros. Falo não somente dos frascos mas da embalagem como um todo. A caixa que protege o frasco é também motivo de design e complementa o conceito. Os frascos estão sempre sendo alvo de design altamente sofisticado para atrair cada vez mais clientes, muitos destes olfativamente destreinados e pouco exigentes. Aqui no Brasil o mercado responde diferentemente. Ainda é um mercado incipiente e o investimento é pequeno comparativamente ao mercado perfumista estrangeiro.

Opium Eau de Parfum Yves Saint Laurent 1977

Devo aqui abrir um parênteses, porque estaria sendo injusta se omitisse citar aqueles que são clientes fiéis de suas marcas, idólatras de seus odores – seus Chanel nº 5 (Chanel/1921), Opium (YSL/1977), Shalimar (Guerlain/1925), Polo (Ralph Lauren /1978), para falar dos odores mais tradicionais. Mulheres e homens sofisticados, cheirosos, amantes de aromas elegantes que remetem ao divino, são narizes que podem cheirar múltiplas essências e distinguir várias notas que compõe uma fragrância. São “home experts” e não são presas tão fáceis das últimas novidades e ardís das perfumarias de luxo.

Trésor Eau de Parfum Lancôme 2007

Dolce Vita Eau de Parfum Dior 1995

Entretanto é sabido que os perfumes antigos feitos atualmente tem sofrido reformulações e não são os mesmos que foram outrora. Obviamente as indústrias não se revelam. As razões são múltiplas; materiais naturais são substituidos por sintéticos porque escarcearam, desapareceram, ou tornaram-se muito caros e são substituidos por materiais mais baratos. Também variam de cheiro conforme a colheita do ano. Alguns materiais devem se adaptar à leis de segurança da IFRA – International Fragrance Association. Quem conheceu e usou regularmente um perfume e o for recomprá-lo hoje ficará seguramente decepcionado. Somente seu nome e talvez o frasco mantiveram-se iguais.

Shalimar de Guerlain não é mais o mesmo. Seu frasco acabou de ser redesenhado e sua fragrância não é mais a mesma. Restou somente sua idéia e seu mito. J’adore de Dior também. O frasco é igual, mas seu aroma é uma pálida idéia do que foi. Fleur de Rocaille de Caron (1933), cheirava a um inebriante bouquet de flores mas hoje cheira a rosa ácida.

Shalimar Parfum Guerlain 1925

Assim, continuando, o fator de escolha de um perfume recai inúmeras vezes no design dos frascos, quando o comprador não tão versado na ciência, desorientado pelos odores semelhantes, pelo vendedor desarticulado, pelo ambiente já odorizado, sucumbe ao forte apelo visual da embalagem. Este fator de escolha segundo pesquisas, ocorre em maior número no público masculino.

Este é o “ardil” e a tarefa mais difícil que os usuários devem enfrentar, porque é uma atração indescritível escolher entre os belos frascos coloridos contendo um mundo mágico de indescritíveis e misteriosos (para a maioria de nós) odores.

São ricos formatos geométricos ou orgânicos, altos ou baixos, em vidros brilhantes ou foscos, com acabamentos em metal, madeira e plásticos rebuscados; com tampas douradas, prateadas, acobreadas, transparentes ou sólidas, com uma riqueza de estampas e detalhes de ressaltos ou rebaixos, logos exóticos e rótulos com toda a sorte de técnicas, caixas suntuosas em papelões aveludados que antecipam o prazer do nobre encontro com a fragrância desejada, cobiçada (?) mas quase incógnita, momento este que se assemelha ao prazer que nos daria o encontro com um sedutor amante secreto.

Shalimar Eau de Cologne / Guerlain 1925

O design de produto e gráfico, portanto, tem um papel preponderante na vida da perfumaria. Como somos por natureza criaturas visuais e tácteis, queremos ser sensibilizados pelos objetos. Um perfume nos propõe três tipos bem fortes de sensibilização, a olfativa, a visual e a táctil. O Perfume é um objeto de alto sentido, porque traz prazer e função. Desde sua embalagem até seu conteúdo liquido envolvendo seu odor.

Por um lado ou por outro, esta indústria soube muito bem enredar seu público alvo.

Se a nossa aventura pela descoberta de um novo perfume for motivada simplesmente pela busca por um novo cheiro ou por uma memória olfativa ou ainda pela busca de status ou um impulso consumista ou quem sabe algum imperativo estético, devemos estar conscientes que de qualquer forma estamos presas(os) a outro imperativo, o econômico, da nossa era. Desta forma, mesmo pensando em todos os aspectos de sustentabilidade, por uma razão ou por outra acabaremos por comprá-lo!

Observação:

As fotos foram colocadas em ordem aleatória, mais por questões estéticas do que por razões históricas. Todos os frascos pertencem à coleção particular da autora.

Todas as fotos são de propriedade da autora. As fotos não podem ser reproduzidas.

Créditos:

Fotografias:

Suzana Sacchi Padovano

Sapato, scarpa, chaussure, zapato, schuh…!

Put on your red shoes and dance the blues” David Bowie

Flair julho 2008/n.7

Flair julho 2008/n.7

Sapatos, sapatos, sapatos. Desde criança uma mulher gosta de sapatos. Terá nascido assim ou terá aprendido a amá-los?

Eu me lembro que na idade de 4 ou 5 anos desejei que minha mãe comprasse um sapatinho de verniz vermelho “mary-jane” que eu havia visto em uma loja de sapatos. Fiquei muito triste porque ela os comprou pretos. Disse que vermelho era uma cor vulgar. Somente muito mais tarde, com várias sessões de divã, consegui me livrar deste “trauma”…

sapato estilo mary-jane

Sapato estilo Mary-Jane

São poucas as mulheres que conheço que não adoram possuir sapatos…muitos deles. Mulheres de todas as faixas etárias e classes sociais.

As muito abastadas amam possuí-los de todos os formatos, cores, alturas, modelos. Para cada par que compram sempre existe uma jusficativa irrefutável. Pares e pares ficam estocados nas prateleiras dos armários quando alí cabem. Ou então quando muda de estação são guardados em suas caixas e vão para algum outro pouso para dar lugar aos novos que chegam. É um vai e vem que nunca tem fim. O descarte é impensável. Cada par traz sentimentos infinitos; amorosos ou raivosos mas que jamais serão esquecidos.

O mote é colecioná-los porque parece existir uma Imelda Marcos dentro de toda mulher.

Além disso existe todo um ritual para limpá-los. Muitas, as mais exigentes e economicamente dotadas, após um dia de uso, os levam ao sapateiro para uma limpeza especializada. Outras os higienizam em casa com desodorantes, álcool, flanelas especiais e uma mãozinha de creme importado ou graxa. Tem aquelas que os deixam respirar em compartimentos com aparelhos especiais que retiram os ácaros do ar evitando desta forma o bolor. Quase todas, colocam seus sapatos em saquinhos de TNT que “respiram” e tem alguma forma de visor para poderem visualizá-los. Quem não, escreve o modelo nas caixas de papelão. Atualmente existem no mercado caixas totalmente transparentes, empilháveis e ventiladas. Enfim modelos para todos os gostos. Isto tudo para falar de usos e costumes mais atuais.

Agora quanto à moda, sem voltar demais na história pois existem muitos livros especializados nesta área, vou fazer um enorme “salto” apenas citando aqui grandes mestres do design como André Perugia, Roger Vivier, Manolo Blahnik, David Evins, Patrick Cox, David Little, Salvatore Ferragamo, Jimmy Choo, Vivienne Westwood, Christian Louboutin entre outros que fizeram e alguns ainda fazem grandes contribuições sejam técnicas como criativas na área, nos séculos XIX, XX e XXI.

Mas quem são os designers de calçados que estão por trás das ”grifes” nacionais que se apresentam ao consumidor de hoje? Será que o que vemos nas revistas e lojas locais são realmente criações originais? Tenho muitas dúvidas pois já encontrei muitos produtos, em lojas muito conhecidas, que eram a cópia exata de modelos Gucci, Fendi, Ferragamo entre outras.

Obviamente existem estilistas nacionais renomados que desenvolvem trabalhos interessantes mas na história do sapato em termos de estilismo quase tudo já foi inventado, portanto o que vemos nestas coleções é sempre uma reedição, uma busca no retrô, no “déjà vu”. Acho que o que está faltando é muita pesquisa em termos de novas tecnologias e novos materiais. Estes sim trarão estéticas inéditas. O resto é o resto. Um eterno cansaço. Pastiche sonolento. Nos últimos desfiles das Fashion Weeks vi alguns sapatos mal desenhados deformando o passo e o posicionamento dos pés da modelo. Faltou técnica, modelagem, pesquisa.

sapato conceito do futuro/ yves behar, johan liden, geoffrey petrizzi

Sapato conceito do futuro/ Yves Behar, Johan Liden, Geoffrey Petrizzi

Por volta de 1957 Raymond Massaro criou para a casa Chanel o famoso sapato com biqueira preta (hoje oferece sete alturas de salto). Foi um furor.

Casa Chanel/Raymond Massaro/ 1957

Casa Chanel/Raymond Massaro/ 1957

Casa Chanel/Karl Lagerfeld/anos 90

Casa Chanel/Karl Lagerfeld/anos 90

Na década de noventa era muito chique usar sapatos simples, com linhas puras, e os sapatos deveriam combinar com a bolsa formando um conjuntinho harmonioso e total. Este padrão durou longos e tortuosos anos. O tempo dos “combos”. Tudo muito certinho. Saltos c onfortáveis para o mercado de trabalho com biqueiras mais largas. Nesta época os sapatos eram chamados “clássicos”. Quase sempre com a gáspea lisa com um pequeno detalhe, uma fivelinha, um repuxado no canto, um lacinho delicado, uma florzinha. O sapato estava domado, domesticado.

As cores eram bem sóbrias. Preto, azul marinho, marrom, cinza e algumas tonalidades próximas.

Em 1995 Vivienne Westwood e Christian Louboutin puseram o vermelho em linha, este último não somente os fez vermelhos mas pinta suas solas de vermelho vivo até hoje! Sua marca registrada.

Sola sapato Christian Louboutin

Sola sapato Christian Louboutin

E por falar em Louboutin, eis que  ele está abrindo sua loja no Brasil em São Paulo. Considerado o designer francês de sapatos favorito de reis, rainhas e da “hight society”, insuperável pela sua exclusividade, elegancia e pelo design que ele chama “sapatos de Cinderela”, deixou-se fotografar em frente de sua loja descalço. Tirem vocês as suas conclusões.

Bicos finos, saltos altos, cores vivas, o vermelho, o brilho, sempre foram atrativos eróticos.

Hoje vemos sendo relançadas todas as tendências; sapatos abotinados, plataformas, cujo auge foi nos anos 60, ousadias insanas, saltos estratosféricos, mix de materiais erzats, fivelas dominatrix, correiras, correntes, cordões, releituras ”back to the future”, mesmo porque Chanel nos anos 90 já se apropriara do look fetiche no seu clássico sapato de 2 tons.

Casa Chanel 1990/Sapato Fetiche

Casa Chanel 1990/Sapato Fetiche

estilos atuais

Estilo atual

Estilos atuais

Estilo atual

estilo atual

Estilo atual

O centro das atenções e da atração volta-se hoje novamente aos pés.
Agora sapatos se oferecem para todos os momentos, gostos e justificativas. Não existem regras de uso e sim o desarranjo, o desconstruir. Sem combinações.

Os sapatos sempre foram objeto de veneração desde a antiguidade mas o fetichismo só surgiu com este nome no sec. XIX como uma reação à repressão e ao puritanismo vitoriano. Dr. Freud escreve um artigo tardio sobre fetichismo em 1927.

Alguns sinais imagéticos do fetichismo são os sapatos pretos de verniz, os saltos muito altos e finos que conotam submissão da mulher pela impossibilidade de seu movimento. Sapatos providos de cadeados, correntes, tachas ponteagudas (cravos), tiras de couro. Todos estes elementos servem para causar satisfação pulsional tendo o sapato como objeto erótico para prática sexual. Os sapatos fetiche transformam quem os usa em objeto.

Sapato Christian Louboutin

Sapato Christian Louboutin

A análise psicanalítica segundo Dr. Freud faz o “fetiche aparecer como o substituto do falo da mulher (mãe) em que a criança acreditara e ao qual não quer renunciar. A criança se recusa a tomar conhecimento do fato de sua percepção de que a mulher não tem pênis para com isso fugir à ameaça de uma eventual castração.”

No indivíduo fetichista existe uma renegação da realidade externa, uma renegação da castração. Assim como a mulher não tem pênis na realidade, ele encarna o objeto que supostamente falta substituindo-o por um outro objeto da realidade, isto é, o objeto fetiche. A eleição de tal objeto lhe permite não renunciar ao falo na mulher.

Quando perguntado sobre o assunto o Dr. Paul Kardous, analista Lacananiano, me disse que  “o fetiche é uma perversão e não uma psicose. Porém o fetiche na neurose,  pode ser um meio para esquentar, propiciar, apimentar, a relação. Nestes poucos casos, que são os mais frequêntes, é usado como um meio para se atingir um fim, que é a satisfação da pulsão, dito de outra forma: gozar!!! Assim sendo, o fetiche é de uma estrutura perversa quando utilizado apenas e tão sómente com objetivo final da relação e, neurótico (normal) quando usado enquanto meio para se atingir um alvo para além deste objeto.”

sapato-fetiche026

Sapato de Nicholas Kirkwood para Rodarte

Estruturalmente, o fetiche é um artifício para se negar (na neurose) e ou desmentir (na perversão) a castração feminina. Portanto, enquanto perversão, só cabe aos homens.”

E para a mulher? Qual é a origem do fetiche feminino, para sua compulsão consumista especificamente voltada os calçados? O objeto fetiche é exclusivamente masculino. Para a mulher existe a condição da objetificação. Resta saber se ela está consciente dela.

Um sapato não chega a ser um objeto que é abstraido de sua função. Serve para proteção dos pés, se pensarmos em sua função básica. Mas pode vir a sê-lo se for usado por uma única vez e/ou transformar-se em objeto de uma coleção. Na coleção o objeto uma vez funcional torna-se objeto de posse, passivo. Assim a coleção é como um jogo passional que na psicanálise é interpretada como regressão ao estado anal que se traduz por condutas de acumulacão, ordem e retenção agressiva.

O extremo amor e prazer de quem os coleciona vem do fato de que o objeto colecionado lhe parece único e exclusivo. Há o fascínio da singularidade absoluta e da série indefinida. Um jogo até que a vida dure. O objeto colecionado é achado, ordenado, classificado, finalmente exibido, sendo um espelho perfeito do colecionador, aplacando na sua alma todas as tensões e neuroses do dia a dia. O homem para ele regressa, à ele se recolhe encontrando sua paz temporária e ilusória.

Coleção

Coleção

Colecionar sapatos pode ser um caso extremo mas existem ainda outros comportamentos de equilíbrio neurótico. Observação realizada por mim, em loja de artigos femininos para consumidoras de alto poder aquisitivo, durante um certo período de tempo para estudo, mostrou o retorno de determinadas clientes, diariamente, para busca e compra de qualquer produto feminino. Ao serem perguntadas se estavam necessitadas desses produtos, responderam que não, mas que estavam sempre em busca de novidades.

Neste padrão de conduta muitas vezes levavam produtos emprestados tal a carência indefinidamente renovada e sistematicamente frustrada.

Não há dúvida de que o mundo dos objetos é extremamente sedutor, isto pensando da forma como viemos fazendo até agora; sempre conectados num aumento da disponibilidade de bens e recursos naturais consumíveis para nosso máximo bem estar.

Para estas consumidoras só existe o piloto automático. Comprar, comprar, comprar é sua aparente satisfação pessoal ou sua profunda insatisfação interior inconsciente.

Entretanto deveremos pensar numa nova estratégia. Na reeducacão de nossos hábitos, desligando nosso piloto automático, através do pensar na suficiência, num drástico repensamento no nosso conceito de bem estar.

Em face de momentos de crise econômica mundial será que começam a existir limites na consciência dos consumidores? A condição planetária e as questões de sustentabilidade estarão sendo condicionadoras para novas formas de consumo e da idéia de bem estar? Haverá maior conscientização sobre as civilizações carentes no globo? Haverá maior conscientização sobre os danos materiais, conflitos étnicos, fome, instabilidade política, saúde e felicidade humanas?

Quantos 50, 100, 200, 500 sapatos precisaremos comprar antes de podermos sustentar novas éticas para um futuro melhor?

sapato-terra

Foto: Michael Roberts

Notas Bibliográficas:

Dana Thomas, Deluxe How Luxury Lost its Luster, 2007

Jean Baudrillard, O Sistema dos Objetos, 1968

Pierre Kaufmann, Dicionário Enciclopédico de Psicanálise – O Legado de Freud e Lacan, 1996

Colin MacDowell, Manolo Blahnik,  2000

Stefania Ricci (a cura di), Museo Salvatore Ferrgamo, Idee, Modelli, Invenzioni, 2004

Créditos Fotográficos

Linda O’Keeffe, Sapatos

Revista Tank, Volume 3, Issue 10, 2004

Harper’s Bazar, February, 2009

Colin MacDowell, Manolo Blahnik,  2000

Desenho

Suzana Sacchi Padovano

Agradecimento

Dr. Paul Kardous

O Mundo do Design

O Tempo na Moda

“O homem domesticou o tempo ao criar o relógio de pulso”

Baudrillard

No meu papo anterior fiz um vôo razante sobre o assunto sustentabilidade, do qual pretendo falar muito mais posteriormente.

Com os desfiiles das coleções de inverno em São Paulo e no Rio temos um assunto em maior evidência para se comentar – a Moda. Existem muito cronistas de Moda mas poucos críticos e pensadores sobre ela. Baudrillard cita alguma coisa em seu livro “Sistema dos Objetos” sobre um ponto de vista da semiótica assim como Lipovetsky em “O Império do Efêmero” que se debruça sob seus aspectos sócio-culturais.

Nestas semanas de moda, acompanhando os desfiles, senti pouco interesse estético. Praticamente todas as coleções não apresentaram nada de realmente novo. O que vem existindo é um pastiche, uma suplementação, uma recorrência de estilos passados que na maioria das vezes dá lugar ao caos. É o “going back to go to the future” (voltar ao passado para se chegar ao futuro) E o que é engraçado ou o triste é o fato dos comentaristas na TV não apresentarem nenhum discurso interessante. Eles apenas descrevem o que já estamos vendo – que a saia é mini, que tem babados, que tem recortes ou brilhos enfim pouca cultura ou conceitos veiculados. Claro que existem trabalhos de estilistas muito válidos, mas poucos.

Mas não é sobre os desfiles e as últimas coleções o que quero escrever. Como a moda é o espelho da sociedade e estudá-la e tentar compreendê-la irá contribuir para a compreensão de nós mesmos, pensei em abordar um assunto  que acho bastante interessante, que é o tempo. Como ele é sentido por nós na sua irreversibilidade, desde nosso nascimento até a nossa morte e como ele é representado e apreendido na moda nos últimos tempos.

Sim, porque falar sobre o tempo é algo muito complexo e extenso que pode ter um viés científico ou filosófico mas não pretendo fazê-lo nessas formas. Quero escrever sobre os relógios de pulso que notadamente nas últimas coleções européias vem tomando grande destaque dentre os acessórios femininos.

Até uma década atrás aproximadamente era prerrogativa masculina o uso de relógios grandes.

Mr. Anderson Cooper

Mr. Anderson Cooper

As mulheres sempre usaram relógios pequenos ou médios, bem femininos, com correias finas e delicadas, trabalhadas, seja em couro, douradas ou em ouro. Relógios tinham uma especificidade prática que era sua função de fornecer as horas, seu discurso manifesto.

relógios antigos

relógios antigos

Entretanto com o passar do tempo e o crescente poder das mulheres nos vários ramos profissionais, este item passou a possuir não somente sua função denotativa objetiva mas suas funções conotativas como signos estatutários e ostentatórios adquiriram relevância qualificando seu usuário de determinada posição na pirâmide social ou cultural.

Assim a grife do relógio torna-se tão ou mais importante do que saber que horas são, uma vez que o saber das horas pode ser conhecido de inúmeras outras formas como no celular, no carro, em pontos públicos etc..

Existe uma concorrência acirrada entre as grifes tradicionais das grandes joalherias tradicionais como por exemplo Rolex, Boucheron, Movado, Cartier, Patek Philippe e a das grifes de moda como Coach, Dolce e Gabbana, Gucci, Hermès, Fendi, Dior, Versace entre outros.

rolex ouro

rolex ouro

Em 2005 a Fendi lança tendência com um super relógio 4X4 cm e no editorial da Vogue americana do mês de de novembro de 2005 uma super modelo posa com um super relógio; algo super inusitado! Mas ainda é lançamento. Poucas usam ou ousam.

relógio Fendi

relógio Fendi

2004 começa a tendência dos super anéis, os chamados anéis de coquetel, do tamanho do anular, feitos com citrino, diferentes típos de quartzo e diamantes.

Em 2008/9 os acessórios ficam cada vez maiores; brincos, pulseiras, colares tornam-se gigantescos, brilhantes, pesados, massudos. Na minha opinião pouco ergonômicos porque possuem pontas agudas que podem perfurar a pele, as roupas, embaraçar os cabelos. São muito pesados porque são feitos de gemas verdadeiras e não plastificados.

bijoux gigante

bijoux gigante

Quem irá usá-los? Sem falar que são esteticamente bastante grosseiros. Essa tendência já chegou até o Brasil em algumas lojas de bijoux sofisticadas mas apresentam os mesmos resultados desanimadores.

Na corrente do gigantismo estão os chamados relógios poderosos ou como chamam os americanos “power watches”. Surgiram para reforçar o poder as mulheres profissionais, se é que as verdadeiras precisam deste recurso…

Passendo por aí vi inúmeros pulsos de brasileiras adornados por relógios douradíssimos, exageradamente grandes, com corrente metálica, estilo Rolex masculino, todos praticamente iguais à primeira vista. Com grifes indefiníveis. Num primeiro olhar, conotando prestígio, aristocracia e “ócio”. Sem dúvida objetos cuja  ênfase é dada à aparência e ao “poder”.

Entretanto percebe-se aí uma grande contradição de uso.  Estas consumidoras buscando uma identidade ou personalização através do uso de uma grife (de difícil visualização), do simulacro do ouro (dourado) e do poder (tamanho gigante), acabam por despersonalizar-se e seu objeto de desejo acaba por perder-se na extensa malha dos objetos de menor taxa de originalidade, dos objetos erzats ou objetos simulacros, na massificação dos gostos, na generalização e nivelação dos atos e opiniões.

A moda é uma grande impostora, criadora de ilusões. Ela tem uma rapidez tanto de produção como de consumo próprias. O consumidor está sempre ávido por novidades e ambos se auto alimentam criando o objeto supérfluo, com sua obsolescência programada. Neste ciclo o usuário então sente-se fora de moda, inadequado e com medo da rejeição, pronto para um novo novo que já está sendo novamente lançado…

Desta vez o novo é a volta ao velho, ao passado, ao retrô, ao “vintage”. Novos editoriais de moda em 2009 nos mostram relógios pequenos ou médios, bem femininos, com correias finas e delicadas trabalhadas seja em couro, douradas ou em ouro…

retro-style-back-to-the-future

retro-style-back-to-the-future 2008

Assim cria-se uma congestão de produtos inútes onde o “mais consumo” ainda é considerado “bem estar” mas que nada tem a ver com responsabiilidade ambiental e sustentabilidade. Milhares de grifes de relógios continuam a perpetrar diferentes estilos e modelos cada ano com pequenas alterações em tamanhos criando assim novas “necessidades” alienadas da questão planetária.

Como disse Baudrillard, “o homem já conseguiu domesticar o tempo pela criação do relógio de pulso”. Pergunto eu, conseguirá ele “domesticar” seus critérios éticos, tecnológicos e culturais?

É o que se espera urgentemente agora.

Suzana M. Sacchi Padovano

Créditos:

Design Gráfico Cabeçalho: Lorenzo Sacchi Padovano

Foto Mr A. Cooper /Hillary Walsh

Demais fotos: Revistas Vogue America 2004/2005/2008

Elle America 2008